Full text: 1.1915,18.Aug.=Nr. 12 (1915000112)

SELECTA 
Magno e dos Doze Pares de França. (Ainda é 
aquelle mesmo volume de cobertura vermelha que 
me deram no collegio.) E palavra que já andava 
esquecida do « mea Roldão », daquelle mesmo Rol 
dão que eu oppunha aos guerreiros, cujas memo 
rias tanto enthusiasmo davam a vocês ! 
Ah, o meu grande e consolador Roldão !... 
Não lhes parece a vocês que os homens esque 
ceram o heroísmo antigo, o heroismo das Thermo- 
pylas e de Salamina, aquelle velho heroismo que 
os deuses do Olympo haviam communicado aos 
humanos pelos tempos omminosos do Paganismo, 
e que elles ainda guardavam no peito, quando 
existiu 
aquelle illuslre Gama 
Que para si de Eneas toma a fama ? 
Tolstoi, o meigo propheta das steppes russas 
sempre se mostrou insatisfeito com o progresso, que 
elle confessava não saber si teria mesmo o sentido 
de melhoria que lhe davam os modernos nossos 
contemporâneos. E’ que o meigo senhor de Tolstoi 
sabia que os humanos do seu tempo eram apenas 
a caricatura d’aquellos primitivos que crearam os 
deuses, as religiões, as artes e a philosophia de 
que S. Paulo foi o ultimo discípulo... 
Porque vocês devem concordar commigo, em 
como esta guerra do nosso tempo, guerra de preci 
são scientifica, em que entra toda a sabedoria des 
ta idade da electricidade, do telegrapho sem fio, 
do aeroplano e do submersível, é a mais ineffavel 
vergonha que a historia humana ha de guardar 
para o ridiculo de uma epocha, e na qual terão de 
se inspirar os infelizes que venham a existir pelos 
séculos adiante, e que ninguém poderá dizer 0 nC 
não esteja servindo de pasto á risota dos habitan 
tes de Marte, dado, bem entendido, que exista tal 
gente, como quer o senhor Camillc Flammarion... 
Não lhes parece a vocês que esta guerra devera 
ser mais breve, mais fulminante, mais phantastica, 
menos tediosa e mais consoladora nos seus resul 
tados, do que essa caricatura de guerra, inspirada 
nas velhas campanhas da conquista das Galhas e 
nas arremettidas dos piratas orientaes, sem o me 
nor respeito que deveria haver por todo esse pro 
gresso mechanico de que se ufanam os homens 
práticos, e do que essa miseria que se annuncia 
para breve e para todos, tão em contraste com a 
fartura e as riquezas que os antigos vencedores 
levavam dos campos de batalha para os seus ir 
mãos de patria, ou melhor para as suas irmas, 
esposas e mães, pois que naquelle tempo todos os 
homens iam á guerra ?... 
Eu, por mim, confesso a vocês, minhas queridas, 
que cada vez lamento mais não ter existido mais 
cedo, no passado, pela idade do polytheismo e dos 
heroes das Thermopylas, quando a Força ainda 
era uma cousa divina e não mechanica... 
Beijos da J à fi 
/ k(fnÁA^ 
o 
rn: 
Clilis D C Jõi© 
0 Htteratura sobre as cartas de jogo forma 
51 uma verdadeira bibliotheca; do volume 
raríssimo escripto por Jean Gosselin em 1582 
com o titulo La significai ion de Vanden 
jen de caries pyihagorique até os artigos 
de Giuseppe Fumagalli, existe urna serie de 
estudos curiosos e de pesquizas philosophicas 
e psychologicas. 
No principio as cartas eram uma especula 
ção philosophica, um jogo metaphysico, e 
durante seculos, o vulgo profano que não 
era iniciado nos seus mysterios, não lhe co 
nhecia a linguagem symbolica, o que não 
impediu de se servirem d’elle para distracção, 
ao contrario do que faziam os philosophos 
que exprimiam pelo meio das cartas as suas 
allegorias psychicas. E aos philosophos da 
antiguidade succederam os apostólos do mys- 
ticismo, do idealismo, do occultismo, que se 
serviram das cartas para propaganda das suas 
ideias. A origem do jogo na forma mais antiga 
— as cartas pintadas (tarot) vem provavel 
mente do Oriente. 
As cartas apresentavam um notável inte 
resse no ponto de vista artístico, e mostram 
a grande variedade a que chegaram estas 
«paginas do mais antigo e do mais, universal 
de todos os livros». 
Para encontrar essa verdade, devemos en 
tretanto recorrer ao passado, já que hoje as 
cartas de jogo são de uma uniformidade e 
de uma banalidade desoladoras, e apezar do 
estado florescente da arte decorativa moder 
na, ellas ainda esperam o seu William Mor 
ris. Não era assim no século XV quando o 
miniaturista Jacquemin Gringoneur pintava 
para o rei demente Carlos VI de França o 
magnifico jogo que se conserva na Bibliotheca 
Nacional de Pariz, ou quando Martegna de 
senhava aquelle jogo de iarois que é um 
dos primores do genero, e do qual a mesma 
Bibliotheca possue um bellissimo exemplar 
comprado por 2000 francos no leilão Pal- 
liere em 1820. Tambem em Pariz na Biblio 
theca Nacional encontram-se as curiosas car 
tas redondas, onde estão pintados coelhos, 
papagaios e outros animaes. 
A esse respeito convem observar que com 
o andar do tempo, não só as figuras do jogo 
soffreram curiosas transformações, mas tam 
bem as próprias quatro cores foram modifi 
cada e aos clássicos paus, ouros, espadas e 
copas, substituiram-se objectos de toda a es 
pecie, sobretudo animaes: leões, macacos, 
pavões, chimeras, etc. 
Mais bella e mais interessantes que as cartas 
francezas — reconhece-o tmabem Deber< 
são as cartas italianas. As do Renascimen ^ 
são na verdade esplendidas, muito graní e. 
pintadas com urna delicadeza extráordman 
Os mais magnificos exemplares são repre 
sentados pelos iarois chamados dos Vis 
e de outros que se acham no museu 
de Veneza. 
Segundo a opinião de alguns, o iarot vC 
dos antigos Egypcios : e o tarot e f0^ oS 
foi reproduzido por Falconier das figuras ^ 
monumentos conservados no museu de 
lak, perto do Cairo, num elegante tomosin ^ 
espléndidamente Alustrado. Mas os EgyP c1 ^ 
tomaram provavelmente o jogo dos P 0 ' 
orientaes. No extremo Oriente usavam ca ^ 
compridas e estreitas com figuras origi < 
Mas as differenças não são só entre em Euro 
e o Oriente, e sim na Europa de paiz a p al ^ 
mesmo nos proprios paizes variam mUlt0 r | aS 
fallamos sempre do passz 
cartas, de provincia em 
versos, pois as fabricas tii _ QS 
e cada provincia tinha, pode-se dizer, 
seus desenhistas: ^ 
    
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