Full text: 2.1923=Nr. 11 (1923000211)

PELO MUNDO... 
¡5* 
Paraphrase de Salomé 
) r Prim i tivo Sanjurjo 
Ñas mysteriosas paginas da antiguidade, 
passa Salomé como um vulto forte e sereno 
por entre os cedros sinistros que cercam a 
fortaleza soberba do paiz das Idutneas. A 
grandeza de Roma deita estranho reflexo no 
delicioso valle onde encheram os sons das 
harpas mysticas, os perfumes das rosas de 
Saaron e os lyrios de Galahad e de En- 
gaadi. Uma escuridão terrivel e silenciosa 
como o deserto petreo que circumda o lago 
Asphaltite, cheia de dor acre e densa como 
urna espantosa prophecia, produz cm todos 
os sentidos o incitamento heroico que leva 
ao crime de immortal grandeza, tanto bello 
quanto mais monstruoso. Talvez os velhos 
psalmos gravados nos rolos dos orgulhosos 
sanhedrins e nos escudos de couro que en 
cobriam o ouro dos brilhantes feitos das 
bellicosas donzellas de Israel, prepararam a 
tragedia da scena solemne e curta como um 
versiculo, onde o ascetismo do Propheta era 
como um torre de barro reseccado ao sol, no 
meio do sumptuoso jardim do paganismo. 
Herodes banqueteava-se; e os judeus, son 
sos como rapazes no meio dos sombrios oli- 
vaes, murmuravam a respeito dos desman 
dos nos quaes as sandalias e as argolas que 
adornavam as cortezas estrangeiras, sella- 
vam com impio sello a recordação antiga e 
pura das eras, obra dos Juizes. 
Naquelle tempo, a Palestina era uma vir 
gem que guardava occulto o seu thesouro de 
perversidade, sob a túnica branca da Lei. O 
tetrarcha, evocador dos regios suburbios de 
Roma, era considerado por aquel.le jpovo 
baixo o sacerdotal como o alimento apo 
drecido dos ¡dolos de Ascalon; e naquella 
noite doce e única, banhada de luar super 
sticioso, subia da suja cisterna a voz pa- 
thetica e troveajnte de Iokanaan. Urna 
elegia secca e agreste brotava de seus labios 
de sangue, fonte de sonhos para Salomé. 
Lima aragem calida como o hálito de 
leões da Peréa, dava aos archotes resino 
sos um esplendor rutilante e esquivo. E 
Salomé, como urna pantera de Moab, sedu 
ctora como uma turqueza de sangue, e ebria 
de desejos como urna sagrada hierodula da 
Assyria, pousava os seus olhos como as 
sereias de Syrtes, além da belleza physica 
dos jovens da Palestina. 
Iokanaan, o homem áspero e selvagem, o 
visionario do Jordão e das planicies de 
Edan e de Amalek; elle que tinha o corpo 
frio como. os reptis, e branco como a paré- 
de da casa do phariseu, era a victima desti 
nada á offerenda cruenta de urna princeza 
nubil e perversa. Egual aos toques dos cla 
rins da torre Antonia, resoavam aos ' ouvi 
dos da multidão as phrases cortantes e en 
venenadas do prisioneiro de Makeros, e 
seus dizeres curtos como um relámpago de 
colera mostravam as chagas palpitantes de
	        
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