Full text: 1.1915,2.Jun.=Nr. 1 (1915000101)

ENTRE FORNOS E FOGUEIRAS 
rVz a Külnische Zeitung, que o ho- 
^mem tem conseguido supportar tem 
peraturas de mais de cem gráos Celsius. 
A experiencia foi feita por dous estudio 
sos que se fecharam n’uni forno ; mas 
não é caso único na historia. 
As creadas empregadas n’urn fomo 
de La Rochefoucault ficavam, sem 
soffrimento, mais de dez minutos dentro 
de um fomo com urna temperatura 
de 132 gráos. 
Certos operarios inglezes penetravam 
impunemente n’um forno com 171o, 
isto é, com um calor que carbonisava os 
tamancos sobre o ferro em braza. Isto 
foi verificado por Arago e por Blanden. 
Solandier, Lord Seaforth mantive- 
rant-se oito minutos n’um quarto onde 
a temperatura subiu a 128o. 
Em 1874, Tillet communicou á Acu 
de mic des Sciences que tinha visto a 
filha de um padeiro resistir bem doze 
minutos n’um forno onde um thermo- 
metro de alcool marcavá 129°. 
Berger e La Roche, ha uns cem 
annos, fizeram-se fechar n’um quarto 
onde havia um fogo de queimar. Estes 
dous sabios verificaram que o calor do 
vapor d’agua é menos tolerável do que 
o enxuto, mas o marechal Marmont 
diz ter visto em Brussa um turco tomar 
banho n’um tanque d’agua com a tem 
peratura de 78o. 
O doutor Hill diz que viu japonezes 
em tanques de banhos com agua de 44 
a 48o; temperaturas elevadissimas a 
ponto de fazerem acreditar na resisten 
cia de Ananias, na famosa fornalha ju 
daica, de Chrispim na caldeira, onde foi 
atirado a pedido de seus algozes. 
Na India, onde as provas do fogo 
são de origem antiquissima, ha feiticei 
ros e fakires que não só comem fogo e 
partem ferro em braza, como andam 
sobre o fogo, como sobre macios tape 
tes andana uma jovem oriental. 
São conhecidos os julgamentos do 
Deus dos barbaros que invadiram e do 
minaram a Italia. Alguns homens, para 
que ficasse provada a sua innocencia, 
foram obrigados a entrar nús em cal 
deiras d’agua fervendo e sahiram in 
cólumes. 
Cunegundes, mulher de Henrique, 
imperador, e Emma, rainha da Ingla 
terra, caminharam sobre ferros em braza 
para provar a sua castidade. 
A pureza de Teutberga, mulher de 
Lothario de Lorena, foi experimentada 
n’uma prova de agua fervendo. 
João, cognominado Igneo, como conta 
Cantú, e Liprando accusaram de simo 
nía os arcebispos de Florença e de 
Milão, forçando-os a passar intactos 
entre duas fogueiras. 
Pier Bartholoineu fez outro tanto, 
para demonstrara authenticidade dalança 
de Longuinho, descoberta em Antio- 
chia, na primeira cruzada. A esta prova 
foram diversas vezes sujeitas as reli 
quias dos santos. 
Conta-se que os missaes ambrozianos 
escaparam de igual modo, quando Car 
los Magno quiz abolir esse rito. 
A prova do fogo era usada na Sici 
lia. Fazia-se no templo dos deuses itá 
licos, em roda de uma cratera onde 
sahia a jorros agua sulphurosa a ferver. 
O accusado, engrinaldado e de túnica 
desapertada, devia andar em torno da 
cratera, sustentando-se em equilibrio á 
beira d’ella. Se resistia, era innocente, 
se cahia dentro ou perdia a vista pelo 
vapor escaldante, era culpado. 
Praticas semelhantes eram conheci 
das também dos antigos umbríos. Nas 
cordalie triumpham sobre carvões ac 
cesos, em agua a ferver não poucos he- 
róes e heroinas. 
Também entre os gregos havia he- 
róes do fogo. Sophocles, diz que os 
thebanos accusados de terem arrebatado 
o corpo de Polynice, queriam provar o 
contrario, passando sobre-o fogo. 
Mais habituados com o calor arden 
te eram, porém, outros povos do norte, 
contemporâneos das Brunichildas e pos 
teriores a Parstfal e Lohengrin. 
Para convencer Sweno II, rei dos 
dinamarc uezes, que abraçasse a fé 
christã, um diácono d’aquelles lugares, 
foi á sua presença com uma luva de 
ferro em braza. 
O segundo filho de Luiz, o Allemão, 
em 876, para sustentaros seus direi 
tos de rei, fez a prova do fogo com 
30 homens, dos quaes dez soffreram a 
prova do oleo a ferver. 
Os inventores e operadores do fogo 
grego, que salvou uma vez Constanti 
nopla de cahir nas mãos dos turcos, 
eram grandes amigos das altas tempe 
raturas. 
Entre os segredos dos partidarios de 
Alberto Magno, havia diversos para 
tornal-o isento do fogo. 
Cezar viu uma torre de madeira que 
não poude nunca ser incendiada. 
Não faltaram charlatães que davam 
espectáculos infernaes. 
Nas praças viam-se comedores de 
fogo cercados de chammas, peiores do 
que os demonios que appareciam á 
phantasia de Milton e de Tasso. 
Tornou-se famoso o cavalleiro Aldiní 
que, vestido de amiantho, dava as suas 
representações no meio das chammas 
das fogueiras, que deixavam a perder 
de vista as fogueiras em que eram ati 
rados os feiticeiros e os hereges. 
Um outro homem incombustível, 
conta Mancini, foi o hespanhol Lionetto 
que em 1809 percorreu o mundo ma 
ravilhando o publico, e que em Nápoles 
foi objecto de observações scientificas 
da parte do professor Sementini. Lio 
netto batia um ferro quente com o cal 
canhar e a ponta dos pés ; collocava-o 
sobre a cabeça de onde sahia uma fu 
maça nauseabunda; segurava-o assim 
entre os dentes; e depois engulia azeite 
fervendo e punha os dedos e a lingua 
em contacto com chumbo derretido. 
Davemport viu alguns operarios 
inglezes enfiarem o braço nú em alca 
trão fervendo. 
Um outro physico, Bekmann, diz 
ter visto alguns com cobre derretido na 
palma da mão. 
Encontram-se entretanto os maiores 
heróes do fogo entre os Parthas, não 
obstante terem feito derreter ouro sobre 
a lingua de Crasso para demonstrar que 
o fogo queima e mata. 
Zoroastro, para desmascarar certos 
calumniadores, deixou que despejassem 
sobre a cabeça, bronze fundido, depois 
de ter permittido que os inimigos lhe 
lavassem a cabeça com drogas para 
eliminar qualquer effeito de substancias 
protectoras. O que dizer dos milagres 
do fogo nos primeiros tempos christãos 
quando Lourénço dormia sobre a grelha 
ardente, raparigas cantavam nas foguei 
ras que, entretanto, consumiam os in 
cendiarios ? Podemos recordar diversas 
fogueiras, até á de Olindo e Sophronia. 
Contentamos-nos só em recordar 
Gita, a heroina do Ramayana que passa 
incólume no meio do fogo, para de 
monstrar que ella, bella como o sol, 
tinha ficado pura n’um palacio longín 
quo, tambem adorada porque ardía de 
amor pelo marido, Rama, o heróe do 
grande arco. 
Mas o fogo do amor poderia levar-me 
a dar .ao therna uma divagação muito 
larga, sem poder tirar consequências 
praticas : porque, em amor, pode-se 
muito bem resistir a temperaturas ele 
vadissimas, assim como derreter-se em 
fogo moderado. Tambem muitas vezes 
o fogo que mais queima, como cantava 
Horacio, .é o que arde sub cinere 
dolosa. 
Como se vê, haveria muito que dizer 
e o melhor éfazer ponto.
	        
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