Full text: 1.1915,2.Jun.=Nr. 1 (1915000101)

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NOVELL A 
Esta novella, cuja leitura é agradabilíssima pelo modo por que 
é tratada, gira em torno da afiir mação de que para amar o 
coração não tem idade. 
— Que diz teu páe ? — perguntou Valburgo, sem 
interesse, quando Cesarina acabou de ler a carta. 
— Nada. Muitas lembranças; beijos ao pequeno... 
— Ah ! beijos ao pequeno ? 
— Pobre papá ! Morre de desejo de vel-o. 
— Santo Deus ! Pois que venha. Não lhe fecha 
mos a porta! 
— Mas que queres ? A viagem é longa. Se elle 
vier terá que ficar. Não o podemos mandar embora 
logo. Que dizes ? 
— Vejo que teu pae te escreveu qualquer cousa. 
Vejo que não foram sómente as lembranças para 
nós e os beijos para Lili ? 
Cesarina, calada, aprezentou a Valburgo a carta 
do papá; mas Valburgo não a tomou, recusando a 
difficil empreza de decifrar a lettra senil. Elle nunca 
tinha andado muito de accordo com o sogro por 
causa do dote de Cesarina e por outras cousas. 
Assim tinham passado quatro annos sem se verem 
e sem se escreverem ; quatro longos annos durante 
os quaes Cesarina muitas vezes tivera que abaixar a 
cabeça sob os olhares severos de Valburgo e de sua 
mãe, como se a verdadeira culpada fosse ella: só 
ella, Cesarina. Culpavam-na : de não ter filhos. Mas 
tinha vindo Lili, pobre Lili, para saival-a e permit- 
tir-lhe receber cartas do papá. 
E papá agora se desabafava mandando beijos por 
escripto para Lili. 
Valburgo continuou calado, sem se perturbar. Fez 
apenas um gesto, que Cesarina — muito pratica na 
linguagem muda que se exprime pelas mãos, assim 
como pelo rosto e pelos olhos — traduziu assim : 
— Conversarei com mamã. 
E Valburgo sahiu, talvez para fallar com a mãe. 
Cesarina estava triste e só. 
A creança era muito pouco sua ou, ao menos, 
era muito mais dos outros. A ama, a mamã de Val 
burgo, Valburgo, o doutor, os velhos amigos e as 
velhas amigas de casa, todos, tomavam-lhe um pouco 
do filho e afastavam-no do seu amor, da sua mater 
nidade que ardia invisível, calada, timidamente hos 
til. Lili tinha sido demasiadamente esperado pelos 
outros mais do que por ella própria ; pelos outros 
que queriam ver nascer em casa um filho de Val 
burgo : um menino ou uma menina, fosse o que 
fosse. Cesarina era quem devia fazer o filho, mate 
rialmente, porque era a mulher legitima de Val 
burgo : simplesmente. Consideravam-na uma tola 
para não lhe fazerem a injustiça de julgal-a sómente 
a filha do seu pae, que sempre tinha gozado de 
uma bellissima má fama. 
— Innocente ! — dizia Valburgo que não sabia 
possuir elle também um nome sybillino, talvez porque 
na familia já tivesse havido uma tia Valburga. — 
Chama-se Innocente, esse homem! Pode-se então, 
ouvir chamar assim sem se sentir escandalosamente 
adulado ? Elle, então ! 
Mas Valburgo tinha sido creado na escola da 
mãe muito preso demais para saber comprehender 
e sympathisar. Nunca tinha sido moço, na aocepçâo 
da palavra e não o era agora que podia ser feliz 
entre uma mulherzinha bella, loura e submissa e a 
deliciosa bolinha de carne côr de rosa que ainda 
nem sabia brincar com o chocalho de marfim com 
campainhas de prata. Era a mãe e sogra quem go 
vernava, a sollicita mãe e sogra que guardava todas 
as chaves, que tomava conta da despensa e da rou- 
paria, que fazia as contas com a cozinheira, que 
espiava na sombra os olhos da nora. Valburgo 
nunca se tinha habituado a ter um papá: o seu 
tinha morrido cedo e quasi não se lembrava d’elle. 
A mãe — uma excellente mulher como a maioria 
das viuvas honestas — tinha-se, resolutamente, pro 
posto a educar o filho cuidadosamente, segundo as 
suas ideias estreitas e com a severidade das antigas 
utopias de familia; e tinha feito d’elle um homem 
impossivel, irascível, obstinado, contradictorio. 
Elle discutia á noite com os amigos, sempre into 
lerante ; Cesarina levantava a cabeça do jornal ou 
da chicara, e olhava para elle espantada, como se 
aquellas palavras lhe viessem de um tempo longín 
quo e não tivessem agora, no quarto onde Lili dor 
mia cheio de somno no eolio da ama, significação 
alguma, razão alguma de ser. Talvez Valburgo não 
estivesse convencido do que dizia : fallava por ha 
bito ; porque o habito impõe, ás vezes, aos homens 
fallarem de uma dada cousa a uma dada hora. 
A mãe immovel, attenta, serena, olhara e es 
cutava sem approvar ou desapprovar. Percebia-se 
que ella não entendia bem de certas cousas e que a 
sua religião era acanhada, só se preoccupando com 
as obrigações da pratica. Era a mulher ajuizada e 
segura que não se deixava levar pela vertigem da 
idealidade ascética. Ella era uma dona de casa que 
amava as suas chaves. E as chaves eram brilhantes 
porque muito gyravam. As chaves fallavam e can 
tavam nas suas mãos longas e ainda bellas, e con 
tavam uma historia, toda a historia de uma vida, de
	        
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