Full text: 1.1915,16.Jun.=Nr. 3 (1915000103)

SELECTA 
magico. Renato Simón i respeitando a obra 
de Sardou não lhe trouxe grandes modifi 
cações ; algum córte necessário, alguma 
amplificação opportuna. Um libreto magni 
fico, pois, digno de um musico de grande 
fama e talento como é Umberto Giordano. 
Mas que difficuldades não teve elle que 
vencer para que a belleza do libreto corres 
pondesse a musica ! 
Desde annos elle trabalhava na opera, 
escrevendo e corrigindo. 
Primeiro o successo de Nova-York e de 
pois o caloroso e absoluto de Turim foram 
premios que bem mereceu o incontentavel 
artista. 
Pelas razões que já procurei expôr acima, 
os obstáculos a vencerem-se eram enormes; 
tratava-se de fazer cantar Ma dame Sans- 
Gêne, o marechal Lefebvre, Napoleão, o 
conde de Neipperg, o commissario de policia 
Fouché; de descrever em musica a Córte 
Napoleónica, sublinhar com a orchestra atti- 
tudes ora grotescas, ora dramáticas, de passar 
da facécia ao sentimentalismo, do humilde 
tom da loja da engommadeira Catharina 
Hubscher, á revolução que alastra pela 
praça, e mais tarde ao austero gabinete de 
Bonaparte ! 
Era preciso um musico da agilidade e da 
■solida tempera que é o autor da Chéntér e 
da Sibéria, para affrontar uma empreza tão 
grave. O maestro conseguiu ; elle apresenta 
uma opera scintillante.de graça e de alegria, 
reavivada por qualquer toque heroico, por 
qualquer pincelada sentimental. O primeiro 
acto, um dos mais apreciados pelo publico, 
desenrola-se rápido sobre um thema orches- 
tral cheio de vivacidade; como no Chénier, 
■Giordano serviu-se cóm muito gosto de al 
guns cantos populares, a Carmagnole e a 
Marselhesa para dar a côr local. Um duet- 
tino delicioso entre Catharina e Lefebvre faz 
lembrar o Giordano da Fedora. 
O segundo acto abre com um terceto no 
tempo de minuêto que é uma das joias da 
partição; toda a deliciosa scena entre Ca 
tharina, o mestre de dança, o sapateiro e o 
— —o 
alfaiate é escripia com grande delicadeza; 
a musica leve na qual se encadeiam em 
surdina minuetos e gavotas, permitte apre 
ciar-se cada palavra ; adiante, com a entrada 
de Lefebvre e mais tarde ainda na scena 
com Neipperg, a musica exalta-se, tem 
lampejos dramáticos que culminam na ins 
pirada aria de Catharina: 
■' Ma-piíí spesso la terra era il giaciglio 
per i nostri riposi! 
Si, dormii tra i sol da ti, piú di voi rispettosi, 
per la donna che sono, per il nome che porto. 
No terceiro acto estamos no gabinete de 
Napoleão : e é o acto que apresentava maior 
difficuldade. O pallido corso cantaria então ? 
Como ? Como cantam todos os mortaes. 
Talvez o publico esperasse do heróe de 
Austerlitz e de Wagram um canto sobre- 
humano; mas Napoleão tendo que cantar, 
observou subtilmente um critico, não podia 
ser senão um tenor ou um barytono ; o autor 
quiz que fosse barytono e como bom barytono 
cantou. Mas a escolha de Napoleão e a 
própria estructura do ultimo acto, mais 
dramático, mas menos interessante que os 
outros dous, fez diminuir um pouco a inten 
sidade do successo, A musica muda de tom; 
torna-se mais agitada; mas o publico la 
menta a vivacidade dos actos precedentes. 
Todavia uma bellissima romanza cantada 
pela Lefebvre sacode de novo o publico e 
a opera termina bem com a partida para a 
caça, entre toques de trompa e um corosinho 
alegre. As chamadas a scena foram muitas, 
e se não alcançaram as 40 de Nova-York—na 
America exaggeram-se as chamadas como 
os milhões — sempre foram umas vinte, um 
numero respeitável com o qual Umberto 
Giordano teve todas as razões de ficar sa 
tisfeitíssimo. 
Madame Sans-Gcne parece pois destinada 
a ter nos theatros lyricos boa e constante 
fortuna como já tem tido nos de prosa ; na 
producçâo do maestro Giordano ella é digna 
de figurar junto do Chénier, da Sibéria e 
da Fedora e os theatros contam mais uma 
bella opera nos seus repertorios. 
o— 
a importancia do desenho 
j^ady Macdonald n’uma conferencia 
que fez num Instituto sobre a Arte 
e as Mãos Infantis — contou que ou 
vira o director de um collegio muito 
frequentado fallar a respeito das Japo- 
nezas, notando que a sua surprehen- 
■dente intelligencia e habilidade pratica 
eram o resultado do seu systema de edu 
cação, consistindo um dos seus pontos 
mais notáveis na obrigação para todas 
as creanças d’esse paiz de aprenderem 
desenho. Ensinando-se-lhes o desenho 
não com o fim de fazerem quadros ou 
se tornarem artistas, ou também para 
adquirirem uma prenda elegante, mas 
com o motivo grave de exercitar a mão 
e o cerebro dando-lhes meios de se ex 
primirem facilmente. O'pensamento e o 
desenho andando de par quasi como 
acto simultaneo. 
E a expressão no desenho não sendo 
tão pessoal como a expressão fallada, 
muitas vezes revelava thesouros de sen 
timentos escondidos impressionando as 
sim mais directamente. Deve-se attribuir 
o amor que os Japonezes têm pelas bel 
lezas da natureza ao habito constante 
do desenho. Nada educa tão bem o 
senso da belleza das arvores e flores, do 
céo e mar, como procurar reproduzi 1-os.
	        
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