Full text: 1.1915,25.Aug.=Nr. 13 (1915000113)

SELECTA 
^ Guido, voltando-se de repente para traz — Onde 
Emma, sorrindo — Não ! Eu queria dizer: mi- 
ntl ‘* roãe, se o ouvisse... 
Guido, subitamente—Então, não teria prazer? 
tmma — Sim... certamente... mas dir-lhe-ia... 
Guido — Que ? 
Emma, com ama raiva mal contida — Que meus 
, ,5. não dizem nada! (gesto de protesto de Gui- 
P Que n’elles não se !ê nada! 
Guido — Sua mãe é céga, desculpe ! (n’outro 
/?' Mas... afinal... que pode ler uma mulher nos 
mos de outra mulher? (approximando-se d’ella 
olhando amorosamente dentro dos seus olhos) — 
órnente um homem... pôde ler alguma cousa 
nelles! (Postase bem defronte, fixando-a — ella 
4 
Tá 
n 
éf 
l nclina a cabeça, para fugir do seu olhar) Ah ! 
nao fez a tempo ! Já li. 
Emma, levantando de novo a cabeça com viva- 
Cl dade de coquette — E que leu ? Ouçamos! 
Guido —Uma palavra divina: «A....» (a um 
gesto repentino e rápido de silencio que Emma lhe 
faz, tapa a bocea cómicamente com a mão direita). 
Emma, que se afastou de repente d’elle, olhando 
para a portà envidraçada, como se alguém devesse 
vir de lá, approxima-se' do canteiro mais proximt 
e põe-se a colher flôres.) 
Guido, entretanto, cantarola uma melodia do 
«Sonho de Valsa» e marcando o campasso com a 
cabeça, as mãos no bolso e olhando para o ar, vae 
sentar-se no banco de pedra — depois de um mo 
mento de espera, soccgado — Um falso alarma 
(voltando-separa ella) Que faz, Emma? 
Emma Colho flores... sem a sua licença. 
Guido São suas, pode colher as que quizer. 
Emma —Obrigadissima, Santo Antonio ! 
Guido - Desculpe, São Guido. E’ mesmo pre 
ciso ser um santo, ao seu lado! 
Emrna, depois de uma pausa — E o senhor não 
colhe alguma para a sua lapela ? 
Guido, olhando para a lapela — Ora ! não te 
nho ! (levantando-se) Vou já colher uma (indo 
para junto d’ella) «Amatares amant flores!» (põe- 
se de joelhos ao seu lado e curva-se sobre o can 
teiro; de repente agarra Emma pela cintura e 
beija-a na bocea). 
Emma, endireita-se com desdem — Que faz ? 
Guido, com simplicidade cómica — Colhi uma 
flor. (para tranquillisal-a vendo que ella olha 
atemorisada para a escada) Estamos sós... e sem 
nenhuma suspeita! 
Emma — Podia ter deixado de fazel-o, entre 
tanto ! (põe no peito as poucas flores que colheu). 
Guido, sempre de joelhos— Não pude, creia. 
Emma Então... o senhor não é um homem! 
Guido, levantando-se — Se a beijei é signal que 
sou mesmo um homem de carne e osso ! 
Emma Ah! quem é verdadeiramente digno 
de ser do sexo forte, não se deixa vencer por cer- 
tas tentações! 
Guido —Quer dizer que sou um homem fra 
co? (A um signal affirmativo d’ella). Obrigado 1 
Assim me justifica (Ella faz um gesto de protesto 
e de interrogação ao mesmo tempo). Certamente! 
porque um homem fraco não se póde chegar 
senão ao sexo fraco. «Pares cum paribus»!... 
Emma —E que necessidade tinha de se che 
gar ?_ 
Guido • Pergunta-o a mim ? Pergunte antes á 
irresistível fascinação da sua belleza! 
Emma, pam interrompel-o, com seriedade mal 
simulaaa Basta d’isso! Peço que não falle mais 
d isso. 
Guido Não fallarei mais., mas escreverei oor 
causa d esse beijo... 
Emma, subitamente — Que ? 
Guido Um soneto... de rimas beijadas. 
Emma, depois de uma pausa, sorrindo á flôr 
dos labios— E dar-me-á para ler o seu soneto? 
Guido, insinuante, com olhar languido — Não 
valeria a pena escrevel-o se depois não fosse lido 
pela senhora! 
Emma Quando o escreverá >* 
Guido — Esta noite. 
Emma — A noite ajuda a inspiração ?
	        
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