Full text: 3.1924=Nr. 1 (1924000301)

PELO MUNDO.. 
\> mJA'NTB/’ 
****** * * * 
~~ Por = 
* MARIANO BENLIIURE * 
* * * TUERO * * * 
7 
o 
Sc dermos credito ás historias que contam 
continuamente os João Tenorios, deveriatnos 
suppór que o trem é propicio não somente 
ás aventuras galantes, mas que tem o dom 
prodigioso de despertar nas mulheres mais 
honestas e virtuosas irresistíveis chammas de 
amor. 
De veis todos estar fartos de ouvir rela 
tar historias picantes que começam assim!: 
«Indo eu de Paris para Bruxellas...» «Vol 
tando de um verão em Nice...» «la eu no 
Expresso do Oriente...» 
Que segredo é esse, de exercer o tretn com 
tão maravilhosa efficacia o officio de auxi 
liar de Cupido ? 
E’ um problema sobre o qual muitas vezes 
oogitei, e cuja solução nunca poude achar. 
Todas as vezes que um amigo teve a de 
ferencia de me relatar uma dessas estupendas 
aventuras de estrada de ferro,fil-o contar 
duas ou tres vezes, e com toda a especie de 
detalhes, para vêr se assim conseguia des 
cobrir um indicio que me explicasse a causa 
do extraordinario phenomeno. Mas sempre 
foi debalde. Não consegui mesmo formular 
uma hypothese algo satisfactoria. Na verdade, 
ás minhas investigações, faltou o principal: o 
campo de experiencia. Nunca tive a sorle nas 
minhas viagens, apezar de haver viajado bas 
tante — se me permittem este innocente gabo 
-- de fazer uma dessas assombrosas «con 
quistas» que tantas vezes tem acontecido aos 
meus amigos. 
Mesmo posso dizer que me tem aconte 
cido o contrario. Explico-me: Algumas vezes 
tenho encontrado no trem o que se chama 
uma mulher fácil, muito fácil, de uma fa 
cilidade de que muitos tentos a experiencia, 
e não consegui obter nem um simples cumpri 
mento. 
Aventuras como essa tenho diversas na 
minha collecção. Vou relatar-vos a ultima que 
aconteceu ha pouco tempo: eu viajava de 
Irun para Madrid. Ao chegar em San Se 
bastian entrou no meu compartimento uma 
das mais formosas cortezas: Ju'ia, a Mon'e- 
carlina (esta alcunha não quer dizer que 
Julia seja de Monte-Cario, mas que entrou 
em Madrid como companheira do conde Mon 
te-Cario). Conheço Julia desde que começou 
a se dedicar — certamente com muito pouca 
sorte — ao que tão impropriamente se cha 
ma «vida alegre». 
Hoje ella tem automóvel e até assighatura 
no Theatro Real ; o que não tem comtudo 
é ortographia. Este verão, os poucos dias 
que estive em San Sebastian, encontrava-a 
dc manhã, de tarde e de noite; sempre me 
cumprimentava affavelmente, e algumas ve 
zes me concedia a honra de palestrar com- 
migo um pouao, e até me lembro que um dia 
no Kursaal me concedeu a alta honra de pe 
dir-me um duro para te'ephonar ao seu ami 
go. Pois bem ; quando vi Julia entrar no meu 
compartimento, precipitei-me para cumprimen- 
tal-a com as mais ama víeis e galantes pirrases 
que achei de momento; ella não me corres 
pondeu nem com um sorriso; eu insisti, e 
então ella disse-me que não tinha o gosto de 
me conhecer, e que fizesse o favor de não a 
importunar. Imagine o meu espanto ! 
Depois destas experiencias, comprehende- 
reis que não posso crer que nos trens o 
amor adquira a encantadora simplicidade e 
facilidade dos tempos primitivos, quando os 
homens passeiavam nús pelas mattas. 
Embora eu seja um homem extremamente 
crédulo, esta ultima aventura que vos acabo 
de contar tem me feito duvidar da verdade de 
todas as historias de conquistas nas estradas 
de ferro. Se a Iminlia experiencia neste ponto 
fosse devida á omissão, isto é, a não se of- 
ferecer a mim conquista alguma, eu nunca 
teria posto em duvida as dos Outros, resi 
gnando-me a pensar, modestamente, que eu 
não era o que se poderia chamar um «hç>-
	        
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